Artigo de Joana Mortágua
Como outros camaradas que subscrevem a Moção E “Bloco Plural: Fator de Viragem”, apoiei a moção aprovada na última Convenção. Ao longo dos últimos anos fui eleita pela chamada “moção A” para os órgãos dirigentes do Bloco, incluindo a Comissão Política e o Secretariado Nacional, tendo participado em todos os debates que nesses órgãos se fizeram.
Esta realidade tem levado alguns camaradas que apoiam a atual coordenação a negar o valor das nossas vozes críticas à direção política do Bloco. Argumentam que as nossas vozes não têm valor porque estiveram supostamente caladas até agora. Afirmam que estávamos lá quando as decisões foram tomadas e que “não dissemos nada”. Sobre isto, e a bem da clareza que o debate convencional exige, importa esclarecer posições e corrigir a amnésia repentina sobre o que se passou nos órgãos de direção do Bloco.
Como sempre, é bom começar pelo início. A tortuosa estrada que o Bloco percorreu nos últimos tempos teve casa de partida na candidatura presidencial de Manuel Alegre. Estou tão à vontade para dizer que votei o apoio do Bloco a essa candidatura como para afirmar agora que a escolha se revelou errada. É esse o valor dos balanços.
O percurso de Manuel Alegre e as consequências que esse apoio teve para o Bloco ensinam-nos muito sobre a nossa identidade, sobre o espaço político que ocupamos e sobre quem é o “nosso povo”. Se a candidatura de Manuel Alegre serviu para alguma coisa foi para nos mostrar que o Bloco tem de manter os dois pés firmes à esquerda, sem manobras tácticas que nos confundam com os partidos da austeridade.
O caminho do Bloco pós-alegre mostra que a direção do Bloco falhou essa lição, e só isso justifica a forma como foi posta em prática a estratégia do Governo de Esquerda saída da última Convenção. Aquilo que era uma visão de transformação e acumulação de forças para uma maioria social à esquerda, que eu apoiei, transformou-se numa procura de parceiros para governar com um programa mínimo em que o “com quem” atropelou o “como” e o “para quê”. Foi dessa mudança de linha que me fui demarcando progressivamente.
A valorização excessiva da política de alianças em sobreposição a um projeto autónomo levou a que fossemos com esse programa mínimo, ou até sem ele, bater à porta do PS. Na altura, opus-me na Comissão Política à realização dessa reunião, defendendo que o PS já tinha aceitado as condições prévias do Cavaco e que o encontro seria incompreensível aos olhos do nosso eleitorado, e perguntei onde ficavam as condições prévias aprovadas na nossa Convenção.
Depois disso, o Bloco travou duas eleições, autárquicas e europeias, que resultaram em derrotas. Em nenhuma delas podemos apontar responsabilidades aos candidatos ou aos programas, nem à militância que deu a cara nas ruas. No entanto, o balanço dessas eleições feito pela direção não conseguiu analisar as razões do recuo eleitoral nem identificar nele um problema político de fundo.
Foi por isso que na Mesa Nacional eu e outros camaradas eleitos pela antiga Moção A não aprovamos os balanços propostos. Identificamos como problema central um rumo político pouco perceptível, a necessidade de autonomia estratégica e o fraco distanciamento face ao centrão que tinha como prova, no caso do balanço autárquico, a reunião com o PS poucos meses antes.
No entanto, o Bloco seguiu pela mesma estrada. No final de 2013 fazia escola na maioria da direção a confusão entre autonomia e isolamento, entre projeto de afirmação e sectarismo. Felizmente avançamos com uma lista própria às europeias e com isso acertamos o passo. Mas não escapamos à novela dos 3D que durante os meses de inverno entalou o Bloco entre o Rui Tavares e o Daniel Oliveira, pântano onde nos metemos e quase ficamos atolados. Vale a pena recordar que fiz, nessa altura, junto com a Mariana Aiveca e o Pedro Filipe Soares, um pedido de convocação de Mesa Nacional extraordinária que foi rejeitado pela maioria da Comissão Política, que defendemos a demarcação do Bloco face a esse processo e que intervim na Mesa Nacional dizendo o mesmo que agora escrevo.
Mais tarde veio a carta às esquerdas sem conteúdo e sem saída, contra a qual votei na Comissão Política. Como neste, em tantos outros episódios recusei a confusão entre lealdade e seguidismo e distanciei-me na Mesa Nacional de decisões que tinham sido tomadas sem o meu acordo na Comissão Política.
É verdade que corremos sempre juntos, mas isso não pode servir para esquecer quem foi dizendo que nos enganámos no caminho. Ao longo dos últimos dois anos, as nossas vozes críticas fizeram-se ouvir. Não nos jornais, não em declarações anónimas, não em saídas ruidosas nem em demissões públicas. Não onde podiam prejudicar publicamente o Bloco, mas onde deviam ter sido ouvidas: nos órgãos de direção do Bloco, na Comissão Política e na Mesa Nacional e, em coerência, no apoio a esta moção à Convenção.
Agora, com a memória mais fresca, tratemos do caminho futuro e continuemos a correr juntos.

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