Terminou o período de debates entre moções no processo preparatório da Convenção. Em geral, a participação foi pouco além de subscritores das moções e, naturalmente, as simpatias comprometidas estiveram bastante imunizadas aos argumentários que se cruzaram. Nesse aspeto, e isso não é de somenos, fruímos a democracia e a pluralidade das opiniões, não tanto o seu esclarecimento.
Convém, todavia, prestar atenção aos argumentos que foram sendo utilizados pelos apoiantes da lista U e ao seu discurso ao longo deste conjunto de debates.
a) Confusão sobre o centro da intervenção política. Desde logo, sobre o que entendem por isso. Para uns, e bem, o centro é a bandeira que permite a mobilização social contra o governo da direita, para outros é apenas uma "fronteira de demarcação", uma coisa subjetiva, circunstancial e temática, independente da luta de classes. Para uns, é a reestruturação da dívida externa, para outros já não é isso mas o Tratado Orçamental, para outros é a austeridade em geral, onde se insere isso tudo e mais alguma coisa. Aliás, esta leitura última é que está de acordo com o texto da moção U. Apesar das intervenções dos coordenadores insistirem que o que nos demarca é a posição sobre a dívida, no programa apresentado pela moção U, não só não consta a centralidade e radicalidade da proposta da reestruturação da dívida, como é a terceira (?) medida enunciada para o programa do "polo" de esquerda.
Contudo, a questão é mais séria do que isto, porque a renegociação da dívida tem sido o centro real do nosso discurso, embora nesta fase isso já não mobilize massas populares para ação. É certo que devemos defender a reestruturação da dívida como uma das propostas importantes do Bloco de Esquerda, a par de outras, mas devíamos ter percebido que não tendo acontecido o 2º resgaste, que prevíramos, nem a consequente crise política e eleições antecipadas, essa tinha deixado de ser a bandeira principal para a oposição popular. O refluxo do Que Se Lixe a Troika era o sinal dessa mudança necessária. A defesa dos direitos atacados pelo austeritarismo passou a ser o centro, direitos sociais, direitos constitucionais, traduzidos nas movimentações sindicais, na mobilização popular, nos conflitos e ataques do governo ao regime constitucional para completar a receita da troika. A “revolta” dos cidadãos de que fala a moção U existirá em torno de quê? Da defesa dos direitos.
b) Sobre a dívida em particular, convém anotar que a moção U já não quer cancelar a dívida ilegítima, na linha das últimas posições de Francisco Louçã. A reestruturação é sobre "um forte abatimento”, não explicitando o modo.
c) A propalada linha do "polo" de esquerda, eventualmente juntando Bloco, PCP e cidadania independente, funciona para a moção U dizer que não quer "acantonar" o Bloco. A proposta não tem novidade, é o que sempre fizemos e a que chamamos esquerda grande, é o que defendemos, exceto quando se achou que se podia pôr o PS no esquema de um "governo de esquerda". Não é novidade, a não ser que na U tenham alguma proposta concreta de aliança eleitoral para fazer ao PCP. Têm? Se têm, agora é a altura de a apresentar, não pode ficar em agenda escondida para surpresa posterior.
d) A animosidade à questão da Constituição, que a moção E coloca como sendo o alvo principal do ataque da elite portuguesa, é ridícula e desfocada, mas não deixa de ser grave. À partida, é contraditório na U quererem uma aproximação ao PCP e acharem que a defesa da Constituição é uma coisa recuada. Para o PCP a defesa da Constituição é até mais do que uma posição tática: a Constituição é o fio estratégico desse partido. Depois, são os próprios membros da U os advogados do PS a garantir que o PS não vai mexer na Constituição! Que expectativas em torno de António Costa! Isto apesar do PS já ter feito 7 revisões constitucionais e de estar a ser pressionado para escolher entre o Tratado Orçamental e as garantias sociais da Constituição. Para a piada, dizem que vamos passear com o Almeida Santos a fazer comícios, que nos diluiríamos, mas esperemos, com fé transversal, ter João Cravinho e Bagão Félix nesta luta e os outros indefetíveis esquerdistas dos "manifestos". Falta autoridade para essa alegação a quem apresentou uma proposta de discussão de programa de governo (guião de 16/7/13) ao PS de Seguro. Como parece claro, a Constituição não é o nosso modelo socialista mas uma trincheira de resistência.
e) Arrogam a superioridade da moção U porque é "aberta", os outros são uns desclassificados grupistas. A E quer "dominar", a U é emanação da "partilha". Só para o marketing político. Dando de barato as lógicas de exclusão a que a Tendência Socialismo se dedicou, tendência política que constituirá o núcleo duro da proposta que vão apresentar para a direção do BE, pergunta-se quem está interessado em afirmar-se unitário e exercer a confrontação, baseada em pretensas superioridades de modelo próprio? Felizmente, todos vamos ter de assumir a parte da responsabilidade que nos couber nos votos, na próxima Mesa Nacional e respetiva Comissão Política. O verdadeiro teste à unidade virá depois da Convenção, os termos do debate que agora fazemos serão determinantes nesse momento.
f) A parte mais ligeira deste processo é a de nuns dias os responsáveis da U nos acusarem de querer voltar à idade média dos grupos, coisa de trevas, só eles têm o património deste partido, e noutros dias lamentam não estarmos na moção U, que não, não impuseram a continuidade da coordenação era só uma "disponibilidade" dita à cabeça. E obviamente realizada no fim.
g) A dupla coordenação não é questão chave na generalidade dos partidos que consideramos mais significativos na luta europeia contra o austeritarismo, mas há quem queira fazer da questão da coordenação paritária uma questão de princípio. A questão da recetividade da comunicação destas pessoas concretas que representam o Bloco é assunto posto de parte, em nome do modelo. Para quem reclama a primazia da rua aqui funciona a surdez total.
h) O euro é o tabu da moção U, compreende-se com 3 posições diferentes no seio dos apoiantes da moção, a saber, ficar, talvez sair e sair mesmo. Mas é óbvio que Francisco Louçã e outros vão pressionar, após a Convenção, para defendermos a saída do euro. As várias vozes que o sustentam, inserem nessa análise a pretendida aproximação ao PCP.
Todos ganharemos com um debate informado e não é útil um debate refém de confusões premeditadas. Estes debates, devido às limitações de tempo, tenderam a omitir as propostas da moção E sobre um salto em frente na democracia do país e no combate à corrupção. Acentua-se isso porque tal tem mais a ver com alargar apoio ao Bloco de Esquerda. E essas matérias vão adquirir um enfoque muito importante na disputa política das próximas legislativas.
O projeto próprio do Bloco, que foi negligenciado, é a única coisa que o Bloco tem. Afirmá-lo é condição de recuperação da "esquerda de confiança". Chamar a isso sectarismo, para além de arrasar o passado que nos permitiu ser uma força de elevado crescimento, é um bilhete para a menoridade do projeto que queria mudar a esquerda. Socialismo a sério, democracia a sério. É isso que os outros partidos não têm. A diferença fez e fará a esperança.

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