Em 2012, na sequência do fim de uma liderança forte, o nosso partido aprovou em Convenção uma proposta de liderança paritária que era um desafio múltiplo. Mas passados dois anos, que balanço fazemos dessa experiência?
Artigo de Almerinda Bento
Quando em 2012 o Bloco de Esquerda foi confrontado com o afastamento de Francisco Louçã da coordenação do partido e a passagem do testemunho para Catarina Martins e João Semedo, as reacções foram de surpresa. Surpresa por ser uma proposta inusitada, inesperada, não discutida previamente e pela novidade. Essa surpresa foi não só dentro, como fora do Bloco.
Na altura, o então coordenador justificou a bondade da proposta de modelo paritário por ser inovadora, mas também por existir em alguns partidos na Europa. Desde logo, o qualificativo “paritário” passou a ser substituído por “liderança bicéfala” nos órgãos de comunicação social, mas também frequentemente era ouvido dentro do nosso partido em reuniões de militantes. Defensora da paridade e com um percurso enquanto activista feminista frequentemente confrontada com militantes de organizações de mulheres adversárias da paridade e das quotas, esta mudança na coordenação do nosso partido, obrigava-me a colocar a defesa da paridade e a rejeitar a designação “bicéfala” entre os nossos camaradas. Acreditava que era possível ao Bloco marcar pela inovação e pela diferença, também aqui.
Aliás, o Bloco tinha no seu percurso a luta pela paridade e uma importante quota parte na aprovação da Lei da Paridade na Assembleia da República no ano de 2006, em que é fixada uma representação mínima de 33% de cada um dos sexos. Acrescento, na aprovação e na sua aplicação. Convém lembrar que na Assembleia da República e na actual legislatura é o Bloco quem tem a mais elevada percentagem de deputadas, de entre os 230 deputados e deputadas que constituem a Assembleia. O CDS tem 6 deputadas em 24 (25%), o PCP 4 deputadas em 14 (28,6%), o PSD 32 deputadas em 108 (29, 6%), o PS 22 deputadas em 74 (29,7%), os Verdes 1 deputada em 2 (50%) e finalmente o Bloco de Esquerda 5 deputadas em 8 (62,5%).
Portanto, em 2012, na sequência do fim de uma liderança forte, o nosso partido aprovou em Convenção uma proposta de liderança paritária que era um desafio múltiplo. Mas passados dois anos, que balanço fazemos dessa experiência? É com estranheza que lemos na Moção Unitária, a propósito desta questão “… apesar das virtualidades reveladas pelo modelo. O Bloco pagou o preço de ser o primeiro partido português a estabelecer a paridade na sua representação.” Só isto? Parece-me muito pouco. Não há na Moção U uma ponta de autocrítica, nem o mínimo de humildade para questionar “as virtualidades do modelo” aplicadas à coordenação do/dum partido. Estamos no momento certo para analisar e questionar o rumo do nosso partido e também o modelo de coordenação. Não basta fazermos as propostas ideais, perfeitas, politicamente correctas; se elas estão desfasadas das dinâmicas sociais e do tempo próprio, elas são rejeitadas e de nada valem. Honestamente, camaradas, qual o feedback que têm sobre a nossa coordenação paritária, dentro e fora do partido entre a população com quem contactam? Ela não consegue colher apoio, não transmite confiança, não é mobilizadora.
E logo a seguir, numa fuga para a frente, sem que haja um reconhecimento sério de que este modelo de liderança correu mal, lê-se na Moção U: “Nesta Convenção, fazemos um novo avanço no sentido da consagração da paridade como regra democrática e política da esquerda, estabelecendo-a em 50/50 na Mesa Nacional e na Comissão Política. Também na coordenação, mantemos a coerência dessa escolha pela paridade.” Sobre o avanço para a consagração da paridade plena nos órgãos de direcção – Comissão Política e Mesa Nacional – orgulho-me, enquanto apoiante da Moção Plural, de termos sido pioneiros/as nesta proposta que mereceu posteriormente apoio por parte de outra moção à IX Convenção. Sabendo que é um caminho que, dentro do nosso partido, há que fazer e que não é fácil, é, no entanto, um desafio que se coloca a todos/as nós e que passa por uma maior aposta nas nossas camaradas e no alargamento do Bloco a mais militantes. Mas para isso, a questão da confiança no rumo da política e na liderança é vital. A paridade política que já conquistámos tem de ser sustentada pela paridade social que hoje está fortemente em risco, fruto das políticas austeritárias que têm conduzido muitas mulheres a regressar ao lar. O reganhar da confiança passa por uma mudança na liderança e, sobretudo, pela clareza da política que a liderança consiga transmitir.
Termino, rejeitando liminarmente que esta minha intervenção possa ser apodada de misógina ou de retrógrada por questionar a manutenção da coordenação paritária. Se quisermos fazer “um debate mais profundo que todos os que o Bloco já conseguiu fazer, capaz de recuperar a confiança e a iniciativa na construção da mais ampla unidade social e política.” Temos que ser consequentes, ir à raiz do problema, questionar o que correu mal e arrepiar caminho. Para bem do Bloco de Esquerda e do futuro do nosso país.

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